[SPOILERS PARA]: Super 8 (2011); It: A Coisa (2017); Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (2003); Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984); Jurassic Park (1993); E.T. O Extraterrestre (1982)
Vamos olhar para a sinopse desse filme:
Em uma ilha isolada, um ambicioso experimento científico tenta trazer de volta à vida criaturas extintas há milhões de anos. Quando um grupo de visitantes é convidado a conhecer a instalação, a maravilha rapidamente se transforma em pesadelo: a tecnologia falha, os predadores escapam, e a natureza prova que nunca esteve sob controle. Agora, cercados por seres implacáveis e famintos, os sobreviventes enfrentam uma luta desesperada por suas vidas em um ambiente onde o homem não é mais o topo da cadeia alimentar.
Você reconheceu esse filme? Provavelmente sim. Agora, vamos olhar essa outra sinopse aqui:
Em um subúrbio aparentemente tranquilo, uma presença desconhecida se esconde nas sombras após uma misteriosa operação militar na floresta próxima. Um garoto solitário estabelece contato com a criatura, mas o que começa como curiosidade logo dá lugar ao medo, à medida que fenômenos estranhos e uma ligação psíquica perturbadora se intensificam. Enquanto forças governamentais se aproximam e a criatura revela habilidades além da compreensão humana, a linha entre amigo e ameaça se desfaz, e o lar nunca mais parecerá seguro.
Se esses filmes não fossem os extremamente conhecidos Jurassic Park (1993) e E.T. O Extraterrestre (1982), muitos talvez diriam que essas sinopses pertenciam a filmes de terror. E, por incrível que pareça, eles são. Além disso, não são os únicos filmes de aventura que podemos dizer que são filmes de terror.
Esse fenômeno dentro do gênero de aventura é um que ocorre com uma grande frequência mas nem sempre é discutido. Não são poucos os filmes de aventura que incorporam elementos do terror e vice-versa, mas a pergunta que fica é:
Por que o terror e aventura combinam tão bem?
Primeiramente, é importante estabelecermos que terror é provavelmente um dos gêneros mais subjetivos em qualquer mídia. Porém, algo que está sempre muito presente no terror é o: Medo do Desconhecido. Se olharmos para mídias tradicionalmente consideradas “terror”, podemos observar esse padrão. Olhemos alguns exemplos.
Hora do Pesadelo (1984)? O medo de um monstro que não sabemos como funciona ou como derrotar, e nos ataca em nosso momento mais vulnerável (nosso sono). Corrente do Mal (2014)? O medo de uma força que pode ser qualquer um e persegue a sua vítima sem sabermos como é possível enfrentá-la. Alien: O Oitavo Passageiro (1979)? Não poderia ter um exemplo mais fácil, onde temos uma criatura de outro planeta que não conhecemos nada sobre e mata cada um dos tripulantes de uma nave.
Esse medo daquilo que não conhecemos, não entendemos e não sabemos como enfrentar é a base para uma vasta maioria dos filmes de terror. Até mesmo os clássicos slashers acabam usando dessa dinâmica com a paranoia de não saber quem é o assassino ou não saber qual o seu padrão de ataque.
Curiosamente, filmes de aventura também se escoram em um conceito similar. Quase todos os filmes de aventura se baseiam na procura de um lugar do qual pouco se sabe, de um artefato rodeado de mistério, de uma pista para algo que ninguém tem informações sobre. Uma boa aventura possui um bom mistério que motiva seus personagens a saírem da zona de conforto.
Na verdade, não existe uma aventura sem um mistério. E um bom mistério só pode nascer daquilo que desconhecemos. Por isso, bons filmes de aventura usam e abusam dos elementos de terror para criar um mistério mais forte e dar aos seus personagens o grande trunfo quando eles conquistam informações sobre aquele mistério ou aprendem uma valiosa lição sobre si mesmos e o mundo em que vivem.
Mas o quão frequente é essa relação entre o terror e a aventura? É mesmo algo que está tão presente assim no meio?
Para isso, vou olhar para alguns exemplos do meio que mostram o quão verdadeira é essa correlação.
Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (2003) é um filme clássico de aventura com piratas, romance e a figura bem-humorada de Johnny Depp interpretando o Capitão Jack Sparrow. Seria difícil dizer que esse é um filme de terror. No entanto, o diretor Gore Verbinski insere, com maestria, elementos aterrorizantes através da tripulação fantasma do filme. Somos introduzidos a esses monstros que, em um filme com um tom diferente, poderiam facilmente colocar esse filme na categoria de terror. Não é à toa que em todos os outros filmes da franquia temos elementos como a tripulação amaldiçoada do Davy Jones, sereias assassinas e até mesmo o Kraken. Se pegarmos cenas desses filmes fora do contexto, é muito fácil encaixá-los em um filme próprio com a temática voltada para o horror.
A franquia Indiana Jones é outra que usa e abusa de elementos de terror. É fácil achar diversas pessoas na internet que descrevem como a cena da abertura da arca perdida, um elemento até então com características totalmente desconhecidas a nós e aos personagens, as traumatizou profundamente. Ou a cena do vilão tomando a água sagrada do cálice errado e se desfazendo rapidamente. Porém, nenhum filme da franquia utiliza tão bem esses elementos como Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984). Temos literalmente um culto que arranca o coração de pessoas para realizar sacrifícios para deuses que agem de formas misteriosas ao longo do filme. Sob o comando de um diretor como Ari Aster, esse elemento do filme poderia até se tornar uma sequência de Midsommar (2019) ou Hereditário (2018).
Apesar de já ter citado anteriormente, é difícil não trazer Jurassic Park (1993), nessa conversa. Os dinossauros do filme são construídos como essas forças da natureza imparáveis que desafiam os limites impostos pelos cientistas e a tecnologia. Os velociraptors do filme se comportam da mesma forma que assassinos de filmes como Halloween (1978) ou Sexta-Feira 13 (1980). Os temas do ser humano brincando de Deus e dando errado é um tema frequente no terror, aparecendo em filmes como A Mosca (1986) e Prometheus (2012).
No entanto, será que do outro lado da moeda essa troca ocorre com a mesma frequência? É muito mais fácil incorporar o terror em aventuras do que aventuras no terror? Surpreendentemente, não é tão incomum isso.
Talvez o exemplo mais fácil de uma aventura incorporada no terror está em It: A Coisa (2017). A história, que conta com um grupo de crianças sendo aterrorizados pelo palhaço Pennywise que atua de formas além da compreensão humana, é sem sombra de dúvidas uma história de terror. No entanto, o filme incorpora diversos elementos do gênero de aventura para construir sua jornada, com os personagens partindo para investigações e até enfrentando e derrotando o monstro com aquilo que aprenderam ao longo da jornada.
Filmes como Assim na Terra Como no Inferno (2014) também bebem dessa fonte da aventura, com toda a trama do filme girando em torno de uma investigação ao redor das catacumbas de Paris. O filme, sob um outro tom e perspectiva, facilmente poderia se encaixar em filme de aventura com elementos de terror. O mesmo ocorre com outros filmes tal qual Invasão Zumbi (2016) ou Predador (1987). São todos filmes de horror que mantém os elementos aterrorizantes à frente, mas que ainda assim constroem aventuras ao redor de suas tramas e monstros.
Não é à toa que é muito comum vermos filmes de horror se tornando franquias de aventura ou ação. Dois exemplos clássicos são o que ocorreu com a franquia Alien e O Exterminador do Futuro, no qual os seus primeiros filmes são terror com elementos aventurescos e suas sequências se entregam mais à aventura e ação do que ao horror. Curiosamente, com ambos tendo sua sequência dirigida por James Cameron. Ou o que ocorreu com A Múmia, em que seu sucessor espiritual com Brendan Fraser é um grande filme de aventura e ação.
O que é curioso se perguntar, no entanto, é a tenuidade da linha entre esses dois gêneros. Se eles conversam tanto, em que momento conseguimos separar um do outro? E a resposta é muito simples: Tom.
Vou pegar, como exemplo, um filme que é muito querido por mim e que pode ilustrar muito bem esse ponto: Super 8 (2011). Esse filme, dirigido por J.J. Abrams, é sobre um garoto que está tentando gravar seu próprio filme de terror quando uma força misteriosa alienígena invade a cidade e começa a causar caos e destruição, tornando tudo mais complexo com a intervenção de forças militares e o desaparecimento de pessoas. Esse filme caminha uma linha muito tênue entre horror e aventura, mas o que dá a ele o título de um filme de aventura é justamente como ele conduz seu tom.
O filme, desde seu princípio, não quer provocar medo, tensão ou desconforto em seus espectadores. Muito pelo contrário. O filme procura mostrar descoberta, maravilhamento e emoção, com o personagem protagonista enfrentando essa criatura alienígena e a compreendendo, percebendo que ela não é maligna ou uma força imparável, apenas incompreendida. O protagonista cresce com essa jornada, e o terror em si fica apenas como um obstáculo da sua jornada que mostra o tamanho daquilo que o personagem deve superar.
Já um filme como It: A Coisa, apesar de muito similar em sua execução, conduz o tom do filme ao dar um enfoque maior no medo, no trauma e no terror que o monstro de Pennywise causa nas crianças do filme. Mesmo derrotando-o, elas nunca o compreendem de fato, e o filme se concentra justamente nas camadas de trauma e medo vividas por essas pessoas. A aventura em si é um elemento presente no filme, mas o foco no que é mostrado é justamente o poder desse medo e como superá-lo.
E podemos aplicar essa diferenciação do tom em todos os filmes que foram falados aqui nesse texto. Alguns filmes acabam andando nesta linha de forma mais tênue do que outros, e alguns ainda dirão que certos filmes que citei aqui não são nem considerados terror dada a subjetividade do próprio gênero. Porém, trilhas sonoras, linguagem corporal dos atores, a fotografia e a mensagem da narrativas são justamente esses elementos-chave que criam a diferenciação entre os dois gêneros. Afinal, se jogarmos uma trilha sonora triunfante em O Extermínio (1999), temos um filme onde um herói enfrenta zumbis e terríveis forças militares malignas, e não uma reflexão sobre nossa própria humanidade e violência.
Lembra-se do que eu disse anteriormente sobre o medo do desconhecido? Em ambos os gêneros, elas possuem funções diferentes que são explicitadas em seu próprio tom. Na aventura, ela leva ao crescimento pessoal, à descoberta, à maravilha. O entendimento do alienígena em Super 8 é motivo para nos maravilharmos e ficarmos boquiabertos com a pureza exposta. Já no horror, ela provoca tensão, desconforto e até mesmo um enfrentamento com seus próprios demônios de uma forma agonizante. Quando os personagens se veem de frente para o Xenomorfo em Alien, eles não ficam maravilhados, mas horrorizados e questionando sua própria mortalidade frente ao vasto cosmos.
No entanto, o que fica claro aqui é que os dois gêneros não só conversam muito, como se complementam com muita facilidade. Às vezes, se o objetivo é dar uma pitada a mais de tensão em um filme de aventura, talvez seja mais interessante olhar para A Bruxa (2015) do que para Viagem ao Centro da Terra – O Filme (2008). E talvez, se o objetivo é dar uma dose de emoção e ação em um filme de terror, um resultado mais valioso pode sair estudando Jumanji (1995) do que Invocação do Mal (2013).
No final das contas, o que torna muitos desses filmes tão especiais e memoráveis é justamente essa mistura. O que torna muitos deles ainda mais divertidos é justamente observar o quão bem os dois se encaixam e, além disso, como eles realçam suas mensagens e os objetivos de suas histórias.
Afinal, quão bom seria It: A Coisa sem a investigação das crianças?
E quão bom seria Jurassic Park se não tivéssemos o monstruoso T-Rex?




