[SPOILERS A PARTIR DAQUI]:
As coisas estavam extremamente sombrias para o futuro do homem de aço nos cinemas após sua última aparição em Adão Negro (2021). O personagem, até então interpretado por Henry Cavill, havia se tornado impopular ao grande público e mal conseguia chegar a números expressivos de bilheteria como os filmes da Marvel faziam.
Foi nesse momento, então, que a hierarquia do poder no universo DC mudou.
James Gunn, consagrado diretor responsável por Guardiões da Galáxia (2014) e O Esquadrão Suicida (2021), assumiu as rédeas criativas da produção de conteúdo para a DC Comics, englobando filmes e séries. Seu primeiro projeto para as grandes telas? Um novo filme solo do Superman, coisa que não ocorria desde Homem de Aço (2013) dirigido pelo controverso Zack Snyder.
Como grande fã de Superman, eu estava preocupado e ansioso no mesmo grau. Apesar de ser um diretor e escritor extremamente competente, James Gunn conseguiria adaptar o Superman fielmente às telas sem transformá-lo em um novo Senhor das Estrelas? Ou o peso de se iniciar uma franquia inteira nas costas do personagem acarretaria em um problema mais uma vez? Afinal, quando o assunto é Superman, a sombra do Christopher Reeve sempre está lá para todo diretor que quiser se aventurar com o azulão. Mas acima de tudo…
Será que o filme iria conseguir me fazer acreditar que um homem pode voar?
Superman (2025) lança oficialmente nos cinemas brasileiros no dia 10 de julho de 2025, mas eu consegui assistir a pré-estreia em telas IMAX junto ao Mestre Patrick, o Mago André, a Lenda Felipolas, a Fabulosa Babi e meu grande irmão Caio. Só para chegar na sessão eu tive que voar pelo trânsito de São Paulo e chegar exatamente no horário que o filme estava começando.
Mas a cada segundo de filme que passava, tornava-se mais difícil tirar o sorriso do meu rosto, e de um jeito bom.
O filme assume que você já conhece o personagem. Ele não gasta tempo mostrando Krypton explodindo pela trigésima vez, ou mostrando os Kents acolhendo a criança alienígena, ou vendo o primeiro voo de Superman. Não, aqui temos um personagem que já está em ação, nos inserindo imediatamente em um universo rico, vivo e que existe independente da nossa presença como espectadores.
E o filme não tem vergonha de quem Superman é. Logo de cara já somos introduzidos a Krypto, o Supercão. Depois disso, a Fortaleza da Solidão em sua glória aparece com robôs resgatando e expondo o personagem ao sol para se curar. O filme não trata com menos seriedade coisas absurdas como o exército de macacos de Lex Luthor xingando Superman nas redes sociais. Afinal, esse é um mundo mitológico. Um mundo fantástico e sem vergonha de ser assim.
A trama do filme é bem simples, tal qual um episódio de um desenho animado no sábado de manhã. O filme, inclusive, pode parecer extremamente raso para os espectadores em função dessa simplicidade em comparação com o épico de Zack Snyder. Ao meu ver, é algo que funciona bem, mas que de fato carece de uma certa profundidade em elementos que poderiam ser interessantes de explorar. O filme até chega a tocar em assuntos como interferência política de super-heróis na geopolítica internacional, mas o grande eixo temático do filme reside na ideia de: Poder fazer vs. Dever fazer. Ou, como é melhor conhecido, Natureza vs. Criação.
E é nesse conflito que mora as duas atuações de destaque do filme: Superman (interpretado por David Corenswet) e Lex Luthor (interpretado por Nicholas Hoult). Ambos entregam uma das melhores versões de seus respectivos personagens, compreendendo em sua totalidade o que faz sua rivalidade ser tão especial. Lex Luthor aqui é movido por inveja e insegurança, crendo que alguém mais poderoso do que ele é uma ameaça a tudo e a todos. Lex acredita que, por natureza, Superman é uma ameaça e não pode ser bom. Já Clark Kent é o contrário, ele escolhe ser bom por criação. Ele desafia a sua natureza, que é explicitada em uma cena controversa com Jor-El onde ele diz que Superman foi enviado à terra para governá-la e tomá-la. O filme não só entende esse conflito como torna-o sua força motriz, e não poderia ser uma decisão mais acertada de Gunn.
E claro, no romance entre Lois Lane, interpretada por Rachel Brosnahan, e Clark Kent, essa força motriz é realçada. Claro, a Lois é sua própria personagem aqui e dá um show de fidelidade aos quadrinhos, porém é inegável dizer que sua relação com o personagem é uma coisa que move o filme à frente. Inicialmente, logo após sair da sessão, eu não tinha gostado muito da relação dos dois. No entanto, ao dar mais pensamento sobre, percebi o quão real e poderosa é a conexão dos dois. Lois Lane mantém Superman questionando a si mesmo, e o lembrando que ser humano também é cometer erros. Já Clark Kent lembra a Lois Lane que há algo bom a ser visto no mundo e que nem tudo é pragmático como artigos de jornal. A relação dos dois é imperfeita, e por isso é extremamente humana, como os dois precisam lembrar de sempre serem.
Abordando outros pontos, o universo criado por James Gunn é rico e vivo tal qual o universo criado por Sam Raimi na trilogia do cabeça de teia estrelado por Tobey Maguire. É possível ver que as pessoas vivem suas vidas independentemente das ações dos protagonistas. Isso é visto desde a Gangue da Justiça até o Malik Ali, um simples civil que aparece em duas cenas. Destes personagens secundários, o destaque vai para o Senhor Incrível, interpretado por Edi Gathegi, que consegue roubar a cena em todo momento que aparece. Era apenas natural que os personagens menos conhecidos iriam ter um destaque maior, como James Gunn tradicionalmente fez em seus outros projetos. Até em Scooby-Doo (2002) há um destaque dado para um personagem extremamente secundário da mitologia do desenho.
No entanto, o filme não é sem seus defeitos. O grande amontoado de personagens torna o filme extremamente inchado. Personagens como a Engenheira, Ultraman, Mulher-Gavião e outros acabam sendo mal-aproveitados e ficam sem arco algum. A quantidade de sub-tramas criadas também atrapalharam certas cenas de terem seu devido impacto em um roteiro mais dedicado. O que me parece é que o filme deveria ser mais longo para poder melhor aproveitar o que estava sendo construído, mas também temo que um runtime maior só ia fazer com que James Gunn inserisse mais subplots e mais personagens desconhecidos dos quadrinhos.
O meu maior incômodo com o filme foi no quesito dos diálogos. O filme, muitas vezes, parece temer que os espectadores não entendam as emoções dos personagens ou os signos que estão implícitos na trama. Por isso, o diálogo quebra uma regra fundamental da escrita: Show, don’t tell. Também conhecido como: mostre, não conte. Ao invés de termos Lex Luthor afirmando que sente inveja do Superman, isso poderia ter continuado implícito em seu desespero, em sua insegurança velada, tal qual ocorre nos quadrinhos. James Gunn, vendo que criou um mundo onde a regra é galhofa e o absurdo, teme com que as pessoas não se conectem ou levem a sério o que está ocorrendo, e por isso, expõe tudo através de falas.
Esses negativos, porém, não foram o suficiente para tornar esse filme pior. A ação, os personagens, a fotografia, tudo contribui para criar uma experiência cinematográfica que deixa o coração leve ao rolar dos créditos. Diferente do tom mais realista e que não se escora no absurdo do UCM (Universo Cinematográfico da Marvel), Superman traz uma abordagem essencialmente única que abraça todos os aspectos da mitologia do personagem sem medo ou receio, desde Krypto até Jimmy Olsen arrasa-corações.
Em meio a uma enxurrada de filmes genéricos de super-herói que, mesmo com ideias interessantes, são tão diferentes um do outro quanto marcas de sabão em pó, o Superman de James Gunn é uma lufada de ar fresco. É, esperançosamente, um sinal do que está por vir nesse universo. Não é um filme perfeito, mas suas falhas pouco conseguem obscurecer o poder que esse filme exala.
Agora que falei de forma mais “crítica” sobre o filme, me sinto mais confortável para falar sobre meu viés para com ele.
Eu sou um grande fã de Superman. Desde pequeno eu adorava aquele super-herói que usava cueca por cima da calça, tinha uma capa vermelha exuberante e um símbolo “S” no seu peito. Lembro de assistir os filmes do Christopher Reeve em DVDs piratas comprados na feira, e de acompanhar o desenho da Liga da Justiça na televisão, além de ler alguns dos quadrinhos que meus pais compravam.
A minha relação com o azulão é muito profunda e que data desde pequeno. Por isso, houve um desapontamento inicial quando assisti o primeiro dos filmes do Zack Snyder com Henry Cavill como Superman pois ele era fundamentalmente diferente do personagem que eu conhecia. Obviamente, eu adorava as cenas de ação bombásticas, mas sabia que havia algo de errado.
Essa mudança, no entanto, se estendeu para outras mídias. Os Novos 52, um dos muitos reboots dos quadrinhos da DC, introduziu um Superman mais alinhado à visão de Snyder, um que não usava cueca por cima da calça, que era mais agressivo e que namorava a. Mulher-Maravilha. Esse reboot se estendeu para as animações, onde também vimos essa versão mais descolada do personagem.
Em meio a tudo isso, eu constantemente voltava àqueles quadrinhos mais antigos onde o Superman era um pilar da esperança. Onde ele sorria e via o melhor nas pessoas, mas não sem se abster dos conflitos de sua própria psique, da sempre crescente pressão que o tomava para sempre dar seu melhor e nunca ceder a tentação que seu próprio poder oferecia a ele.
Mais do que isso, esse desejo do personagem de ver o bom no mundo, de escolher fazer o bem mesmo que o universo o presenteie com a possibilidade de tirar vantagem, é o que me levou a tatuá-lo no braço. Ele é tanto uma memória da minha infância, como um lembrete do tipo de pessoa que eu quero ver.
Por isso, essa representação do James Gunn é tão importante para mim, que é impossível eu tirar esse viés para ver esse filme. Quando acabou a sessão, pouco me importava os furos de roteiro, os personagens mal-aproveitados ou o diálogo expositivo, tudo que eu tinha eram lágrimas de um coração que havia se tornado mais leve.
Naquela poltrona de cinema, vendo um Superman que abraça seu lado mais absurdo, e também seu lado esperançoso e inspirador, eu deixei de ser um homem com uma tatuagem do Super no braço. Por 2h, eu voltei a ser uma criança que mal podia esperar pelo próximo episódio da Liga da Justiça na TV.
E mais um vez,
Eu acreditei que um homem pode voar.
Nota: 10/10





Demais.
[…] de visão cultural quanto o Superman de James Gunn. Já falei com mais profundidade sobre o filme em outro texto, mas trago aqui novamente apenas para concluir que, de fato, estamos passando por uma mudança de […]