Estaríamos Vendo o Fim da Era do Cinismo na Cultura Pop? 

Indagações sobre a principal tendência na Cultura Pop

Spoilers a seguir para: Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022); Rick e Morty (2013). 

Em 2019, an Amazon lançou uma pequena série chamada The Boys (2019-Presente), baseada na série de quadrinhos de mesmo nome escrita por Garth Ennis. A série, tal como o quadrinho, era uma desconstrução dos super-heróis, colocando-os na posição de pessoas arrogantes e desprezíveis ostentando poderes que os tornam intocáveis. Frente ao sucesso do MCU (Marvel Cinematic Universe), a série era uma desconstrução que chamava a atenção e colocava esses super poderosos em um mundo extremamente cínico.

Em 2025, no entanto, tivémos Superman (2025), dirigido por James Gunn. Um filme que não busca desconstruir o personagem, mas sim abraçar com sinceridade todo o seu otimismo e absurdidades. O filme nunca questiona o personagem usar cuecas por cima da calça, pois não estamos em um mundo cínico e “realista” que precisa apontar o dedo e falar que isso é bobo. 

A frase motriz de Superman é: “Talvez a gentileza seja o verdadeiro punk rock”. E tenho para mim que ela simboliza a chegada de um novo zeitgeist na cultura pop. 

Porém, em um contexto maior, sem considerar os filmes de super-herói, essa tese ainda se sustenta? Estaríamos saindo de uma era dominada pelo cinismo e pelas tentativas de observar o mundo sob um viés “realista” e mais pragmático? Seria a esperança e o otimismo o novo molde para filmes se inspirarem? 

Estaríamos, finalmente, saindo da era do cinismo na cultura pop? 


Em 1999, foi lançado um filme que não causou nenhum impacto chamado Clube da Luta (1999). O filme era uma resposta à desilusão com o sonho americano e trazia consigo um tom extremamente niilista em relação ao mundo e, especialmente, ao capitalismo. O filme ressoou muito com a Geração X americana, que se via presa aos seus empregos de cubículos que sugaram pouco a pouco suas personalidades e sua alma. Esse eu considero como um dos precursores da Era do Cinismo, que tomou conta da cultura pop nos anos 2000 e 2010. 

A Era do Cinismo pode ser definida como um zeitgeist. Em outras palavras, é o espírito do tempo. Filmes, séries, jogos, música e tudo que envolve a cultura pop são representações desse espírito do tempo, que não só mostram como as pessoas estavam se sentindo na época, mas como pensavam e como viam o mundo. 

Eventos como o ataque terrorista às torres gêmeas no dia 11 de setembro de 2001, ou a crise imobiliária de 2008, e até mesmo as mudanças nas relações humanas provocadas pela popularização da internet, mudaram a perspectiva da sociedade em relação ao mundo. E essa mudança de ótica impactou diretamente nas produções que estavam sendo produzidas na época. Principalmente as produções de Hollywood.

O que começou a tomar conta dos conteúdos foi uma constante decepção e desilusão com o mundo. As gerações que já estavam adultas na época se viam desesperançosas e frente a questões que antes eles não se faziam. Já as gerações que estavam chegando encontraram uma sociedade que havia prometido o mundo, mas que não parecia que iam conseguir entregá-lo com a mesma beleza. Assim, então, nasceu uma sensação melancólica e mais pragmática nas pessoas, que refletiu diretamente nas produções hollywoodianas e deu luz à Era do Cinismo. 

Essa ótica cínica é vista desde produções como O Cavaleiro das Trevas (2008), que coloca o Batman em um mundo mais realista e pragmático, até filmes como Superbad (2007), que ironizam e tiram sarro das ideias espalhadas pelos filmes besteirol do final dos anos 90 e começo dos anos 2000. Havia uma certa constância na mensagem que carregavam consigo uma rejeição a absurdos e uma ironização da sinceridade. 

Essa tendência se estendeu para os anos de 2010, com exemplos como Deadpool (2016), em que o próprio protagonista desconstrói e zomba dos clichês de filmes de super-heróis. Outro exemplo, da mesma franquia, é Logan (2017), que coloca o querido personagem Wolverine em uma posição mais madura, com um questionamento e visão mais “trevosa” do seu próprio universo e persona. Fora dos super-heróis, temos grandes exemplos como John Wick – De Volta ao Jogo (2014), Birdman (2014) e A Rede Social (2010). Todos esses filmes trazem consigo reflexões mais pessimistas e pragmáticas da sociedade, ou carregam consigo uma irreverência e brutalidade exacerbada. Esses filmes estavam apenas refletindo o espírito da época, onde a sinceridade e a esperança não tinham lugar frente à ironia e desilusão. 

Que exemplo mais simbólico da força do cinismo nessa época senão Zack Snyder. Ele, em seu filme Homem de Aço (2013), buscou colocar o Superman, que é o garoto propaganda da esperança, em um mundo desiludido e pragmático, traçando comparações com figuras religiosas e fazendo a pergunta “E se o Superman existisse no mundo real?”. O que ele fez, no entanto, foi colocá-lo em um universo pessimista e sem cores, e muitos outros filmes do gênero tentaram seguir essa ideia como Quarteto Fantástico (2015), que queriam colocar personagens de diferentes épocas dentro desse zeitgeist

Vimos essa irreverência até em personagens populares desse período. Rick Sanchez, da série animada Rick and Morty (2013-Presente), é a própria encarnação do niilismo e do pragmatismo da era do cinismo. Mesmo rodeado de absurdos, ele mantém uma postura pessimista frente ao universo e tudo que o permeia. Uma das frases mais icônicas da animação encapsula o que essa era foi: “Ninguém existe com propósito, ninguém pertence a nenhum lugar e todo mundo vai morrer. Vem assistir TV”. 

Portanto, essas duas décadas foram marcadas por produções recheadas de comentários mais ácidos, sarcásticos e irônicos, além de uma brutalidade exacerbada, visceral e pragmática. A sociedade não via um futuro à sua frente, e os filmes, séries e jogos refletiam isso. 

Mas então… onde foi que isso mudou?


Em 2020, o mundo inteiro foi impactado por um “minúsculo” evento chamado COVID-19. A pandemia se instaurou e se alastrou pelo mundo com velocidade, colocando todas as pessoas dentro de suas casas e as forçando a se manter em um estado de isolamento e medo de morrerem para a doença. 

Passada a pandemia, o que se encontrou foi um mundo profundamente modificado em diversos aspectos por causa desse período. As pessoas viveram uma situação de desesperança total e, ao invés de se verem em frente ao cinismo novamente, passaram a dar mais espaço para união e otimismo. O boom de eventos presenciais logo em seguida foi uma resposta direta e um contragolpe às relações sociais que haviam sido moldadas pelas redes sociais nos anos 2010. 

E novamente, esse espírito do tempo está agora começando a se refletir nas produções de Hollywood. 

Não há exemplo mais claro do que Tudo em Tudo o Lugar ao Mesmo Tempo (2022). O filme, que ganhou o Oscar de melhor filme no ano em que lançou, não poderia estar mais longe da visão cínica que dominava a cultura pop até então. Ao invés de zombar dos absurdos que ocorrem durante a narrativa, o filme os abraça e os usa para construir sua mensagem. Não é à toa que grande parte do clímax do filme gira em torno de uma discussão entre o niilismo e o otimismo. No final, o filme toma sua posição frente a essas duas ideias e abraça que há uma beleza em ser bom. Como disse o personagem de Ke Huy Quan: “Quando eu escolho ver o lado positivo das coisas, eu não estou sendo inocente. É estratégico e necessário. É como eu aprendi a sobreviver a tudo”. Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo é para esse novo zeitgeist o que Clube da Luta foi para an Era do Cinismo.

Naquele mesmo ano, vimos o lançamento de Top Gun: Maverick (2022), que ao invés de ironizar o filme original ou tentar tornar a ambientação mais pragmática, abraçou o estilo mais campy (exagerado) de seu predecessor e usar dos absurdos para construir emoção. O resultado foi um filme recebido positivamente tanto por público, quanto crítica, quanto bilheteria. 

Enquanto no passado havia uma tentativa de desconstruir suas origens, com reboots que tornavam tudo mais sério e “realista”, os filmes que vêm agora tentam capturar justamente mais dos aspectos mais fantasiosos e cafonas do que veio antes. Top Gun: Maverick não tem medo da cafonice do original, e usa disso para construir sua mensagem com maior potência e emoção ao redor de seus personagens. 

Esses dois filmes foram apenas o pontapé para uma nova leva de filmes que ao invés de priorizarem a ironia e o pragmatismo, valorizavam mais a emoção e o otimismo. Tudo que podia ser desconstruído já havia sido, agora as produções querem buscar o refinamento do que já foi construído. 

O que veio depois foram filmes que se aproveitam do absurdo para construir suas mensagens como Barbie (2023), filmes que não tem medo dos clichês do gênero como Todos Menos Você (2023), ou até mesmo filmes que abraçam o legado de suas origens para construir algo com emoção como Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025) ou Wicked (2024). Pouco a pouco, essa nova ótica do mundo vai se instaurando na cultura pop, tal como foi com a era do cinismo. 

Claro, há ainda filmes que usam, com sucesso, o pragmatismo como força motriz. Filmes como Oppenheimer (2023) ou Anora (2024) bebem ainda bastante do pessimismo e ironia que foram cuidadosamente construídos ao longo de décadas. Afinal, não se apaga totalmente um zeitgeist. O cinismo, de fato, nunca deixará de existir de obras, mas o que ocorre é uma sobreposição. Passa-se a ter menos filmes e séries carregados desse espírito, e sobrepõem-se obras com viés mais próximos da perspectiva da sociedade. 

Esse novo fenômeno não se prende apenas aos filmes americanos. Como a experiência pandêmica foi global, é apenas natural que esse sentimento se espalhasse globalmente. Temos a recepção bem aceita a filmes como RRR (2022) com o toque absurdo característico de produções de Bollywood, ou até mesmo a popularização de animes como DanDaDan (2024) que constroem emoção em cima de personagens vivenciando situações cada vez mais fantásticas e malucas. Até mesmo no Brasil vemos essa aceitação de produções otimistas e mais sinceras com o seu material original como foi feito com Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa (2025), que é praticamente o personagem dos quadrinhos saltando para as telas com seu humor e alegria característicos. 

O que é mais curioso, no entanto, é que até franquias que nasceram na Era do Cinismo já estão se ajustando a essa nova ótica. Já citei Top Gun e a própria Marvel, mas obras como John Wick 4: Baba Yaga (2023) passam a adotar um pouco mais dos absurdos e clichês do gênero com mais confiança que seus antecessores. Temos também a franquia Transformers, que vivenciou um auge com os filmes dirigido por Michael Bay que colocavam os robôs alienígenas que viram carros em um cenário mais realista, e agora se encontram em animações como Transformers: O Início (2024) que não tem medo da cafonice de seu próprio conceito para construir um filme impactante e emocionante. 


Voltando para a comparação inicial, não há nenhum filme que seja tão simbólico dessa mudança de visão cultural quanto o Superman de James Gunn. Já falei com mais profundidade sobre o filme em outro texto, mas trago aqui novamente apenas para concluir que, de fato, estamos passando por uma mudança de zeitgeist. 

Quando lançado, The Boys era um fenômeno que ressoava fortemente com o público e que estava alinhado ao espírito de seu tempo. Em poucos anos, no entanto, é possível ver uma mudança de opinião em relação à própria série. As temporadas que seguiram já passaram a ser mais criticadas e menos aceitas. Mas não necessariamente por uma queda na qualidade narrativa, mas por um próprio cansaço em relação a essa desconstrução e cinismo da obra. 

Afinal, já percebe-se que desconstruir, ser mais “realista” e mais pessimista não é mais uma novidade. Você ironizar e zombar de clichês já não é mais tão engraçado ou descolado quanto antes. Fomos sujeitos a décadas desse comportamento, e essa contracultura já não é mais tão contra assim. Ela já é o status quo. E por isso… 

…Talvez o otimismo seja o novo punk rock.

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