[SPOILERS PARA]: Pequenos Guerreiros (1998)
Talvez tenha sido extremamente oportuno que eu revisitei o filme Pequenos Guerreiros (1998) no momento atual em que vivemos no Brasil. Para contextualizar, o vídeo lançado pelo youtuber Felca sobre “Adultização” atingiu um alcance enorme e levantou inúmeras discussões online e até mesmo o avanço de uma legislação com foco na proteção de menores de idade na internet.
De forma alguma meu objetivo aqui nesse texto é tentar levantar pontos similares ou trazer uma discussão com solução tal qual uma redação do ENEM. No entanto, assistindo esse filme, é impossível não se atentar a um subtexto que foi pensado há 27 anos atrás, mas continua sendo relevante até hoje.
Em meio ao tom aventuresco e clássico da sessão da tarde, existe um subtexto que é praticamente martelado em sua cabeça ao longo do filme. O filme não poupa esforços em mostrar a direção que o mundo estava indo em sua busca incessante por lucros às custas da inocência infantil. E portanto, a questão que o filme põe à nossa frente é:
Em que pontos nos acostumamos com a infantilização da violência?
O diretor Joe Dante foi sempre conhecido por filmes que, em meio a aventuras com um tom de terror, traz subtextos carregados para diferentes interpretações. Um exemplo clássico é Gremlins (1984), que é talvez seu filme de maior sucesso. O filme aborda o incansável trabalho do capitalismo em desrespeitar tradições e costumes em prol do “progresso”, mas sem pensar nas consequências que isso traz para a sociedade. No filme, ao continuamente desrespeitar as tradições dos Mogwai, se dá luz aos Gremlins que aterrorizam e satirizam os costumes humanos.
Naquele filme, o diretor não tão sutilmente nos diz que se passamos a ignorar as tradições e simplesmente abandonamos o “velho mundo” em prol do novo, do progresso e do “novo mundo”, estamos abrindo portas para nos tornarmos feras selvagens. Viciados no que há de melhor que o consumismo pode oferecer, seja álcool, filmes ou até mesmo armas, os Gremlins representam o estado que nós ficaremos se deixarmos de ouvir o que foi construído pelo passado.
E não é nenhuma surpresa que esse tema seja carregado para seus outros filmes, inclusive Pequenos Guerreiros.
Para dar um resumo do filme, a trama acompanha Alan Abernathy (Gregory Smith) que é um jovem garoto que cuida da loja de brinquedos antigos do pai e é aterrorizado pela briga de dois grupos de brinquedos com chips militares de alto nível. Os brinquedos são divididos entre os Gorgonites, monstros que buscam entender mais sobre o mundo e a humanidade, e o Commando Elite, soldados militares que tem como diretriz aniquilar os Gorgonites. Os brinquedos, ao melhor estilo de Toy Story (1995), possuem vida e conseguem se comunicar e raciocinar, tornando-os extremamente perigosos.
Os dois grupos de brinquedos já tem em sua concepção um pouco das entrelinhas da mensagem do filme. Os Gorgonites foram inicialmente criados para serem um brinquedo educacional, com o intuito de fazer as crianças olharem para além da aparência dos monstros e buscarem maior conhecimento sobre o mundo, natureza e como vivemos. Já o Commando Elite foi criado com um único intuito: vender. Eles são soldados com uma estética que vende pois guerras vendem. No entanto, faltava a eles um inimigo, e por causa da aparência alienígena dos Gorgonites, eles foram escolhidos como o oponente do Commando Elite.
O que ocorre ao longo da trama é o que já se espera de um filme do diretor. Os chips de alto nível militar fazem com que os brinquedos ganhem vida e sigam sua programação motriz. Os Gorgonites focam em sobreviver e serem curiosos sobre o mundo, enquanto os soldados focam obsessivamente em aniquilar os monstros, mesmo que tenham de ferir ou matar outras pessoas que se “aliam” a eles. O líder do Commando Elite, Major Chip Hazard (Tommy Lee Jones) é o estereótipo perfeito do major militar que está disposto a fazer qualquer coisa para ganhar a guerra.

Em um primeiro olhar, esse filme parece uma tentativa de tentar ganhar dinheiro em cima do sucesso de Toy Story que lançara poucos anos antes desse filme. Mas, a obra acaba abordando outra questão dentro de seu texto.
Isso se dá não só pela presença do CEO comicamente ganancioso, mas pela presença de dois pais nas duas pontas do espectro protetivo: os super-protetores e os praticamente ausentes. O pai de Alan é um vendedor de uma loja de brinquedos antiga, incapaz de aceitar as novas tecnologias do mundo e prezando constantemente pelo mundo antigo. Uma das únicas regras da sua loja é: sem bonecos militares. Já os pais de Christy (Kirsten Dunst) e Timmy Fimple (Jacob Smith) são pais alheios ao que ocorre na vida dos filhos, só se importando com os luxos do consumismo desenfreado e das tecnologias que podem comprar. Não é à toa que a personagem de Kirsten Dunst é recheada de bonecas e o personagem de Jacob Smith recebe um dos personagens militares sem hesitação dos pais mesmo sendo uma criança pequena.
Nesse contexto, a intenção do diretor provavelmente era de pintar uma imagem similar a de Gremlins, em que os valores tradicionais não podem dar lugar ao consumismo desenfreado e às tecnologias modernas. No entanto, o diretor faz uma mudança que altera esse potencial significado.
O pai de Alan é incapaz de confiar no filho, sempre monitorando suas ações na loja, pois o mesmo se provou “inconfiável” após ser expulso de dois colégios. Alan, ao longo do filme, tem suas ações sempre questionadas e seus problemas negligenciados pela família. No final das contas, mesmo com a regra imposta pelo pai em relação à loja, Alan decide comprar alguns brinquedos da franquia dos Gorgonites e Commando Elite para tentar trazer dinheiro à loja. Mesmo amparado pelos valores tradicionais e a “superproteção” dos familiares, o mesmo caiu pelo mesmo buraco daqueles com pais ausentes.
Por isso, mais do que falar sobre o uso desenfreado de tecnologias em nome do progresso e dos lucros, a obra decide abordar outra questão: Em que momento a infantilização da violência se tornou tão enraizada em nós?

O filme, engenhosamente, não dá voz a nenhuma criança em seus primeiros momentos. Ao invés disso, as primeiras cenas são todas dentro de uma empresa de bonecos recentemente adquirida por uma empresa de defesa americana. A primeira pergunta a se fazer é: qual o intuito de uma empresa militar com uma empresa de brinquedos?
Para o contexto do filme, é apenas a Globotech buscando expandir seus lucros para outras áreas, mesmo uma que seja tão trivial quanto brinquedos. Nas entrelinhas, é sobre o aliciamento e dessensibilização que a máquina do consumismo provoca nas crianças com o intuito de buscar mais lucro. Os próprios pais são também vítimas dessa dessensibilização, exemplificada por uma frase icônica do filme: “Eu acho que a segunda guerra mundial é minha guerra favorita”. A guerra deixa de ser um ato horroroso, e sim mais uma commodity a ser vendida para consumidores.
A origem do conflito do filme se dá por uma questão trivial: um funcionário querendo impressionar o CEO aplicando tecnologia para fazer com que os brinquedos se mexam tal qual na propaganda exagerada que fez. Não foi um ato deliberadamente maligno, ou com o propósito de sabotar os brinquedos, mas apenas mais um dominó dentro da máquina capitalista.
O filme brilhantemente coloca o slogan dos brinquedos: “Commando Elite; Todo o resto é só um brinquedo”. Os brinquedos militares, que se mexem e lutam são superiores, eles são de verdade e sérios, enquanto os outros brinquedos são bobos e para crianças. Não é difícil olhar para propagandas na vida real que fazem algo similar. Esses anúncios funcionam pois, tal qual as crianças do filme, a negligência que sofrem de seus pais faz com que inconscientemente não queiram ser vistos como crianças, mas sim como adultos.
De repente esse texto ficou muito mais próximo do vídeo do Felca quanto eu imaginei.
O filme poderia se prender apenas aos brinquedos tidos como “para meninos” que são monstros e bonecos militares, mas ele também traz a corrupção das bonecas do estilo Barbie que a personagem de Kirsten Dunst possui. Em um momento da trama, os Commando Elites colocam chips militares nessas bonecas para servirem como bucha de canhão em sua guerra contra os Gorgonites. Isso apenas realça como o problema da infantilização da violência, e por consequência do mundo adulto como um todo, não é única e exclusiva dos garotos. As bonecas no estilo Barbie, apesar de terem um intuito diferente da violência militar, perpetuam os mesmos problemas causados pelo corporativismo antiético tentando vender a qualquer custo.
O filme mostra que o problema dessa enraização da violência é um produto do consumo desenfreado, sem pudor pelas consequências que ela pode causar. Ela está presente em todos os lugares, mesmo que não seja percebida. A negligência dos pais junto a frustração das crianças por terem que “ser criança” é inferior a ser adulto, abrem portas para essa infantilização da violência.
Mas no final das contas, a obra oferece algum tipo de solução a esse problema?

Ao final do filme, após os Commando Elite serem derrotados e os Gorgonites serem liberados para seguirem com sua programação principal de explorar o mundo, o CEO volta à cena para ver o caos e os danos que causou às famílias e as pessoas envolvidas.
Sem nenhuma hesitação, o CEO, interpretado por Denis Leary, simplesmente paga por tudo. Ele paga o silêncio das famílias e os danos causados, entregando um cheque com valores que nem podemos ver mas que são comentados na obra como o suficiente para aquietar a todos.
Para martelar ainda mais essa mensagem, ao invés de ficar horrorizado pelo que os bonecos foram capazes de fazer, o CEO sugere aos inventores que os tornem mais caros e que entrem em contato com o setor militar, para que vendam esses brinquedos para rebeldes sul-americanos.
No final das contas, o filme enxerga que a máquina consumista irá continuar independente dos danos que causar. Seja por uma via indireta ou outra mais direta como a própria guerra. As crianças já foram aliciadas e dessensibilizadas, simplesmente irão “refinar o público-alvo”. Os bonecos continuarão sendo utilizados para vender a guerra como uma commodity, eles só serão usados de forma mais direta.
É muito engraçado como uma das frases que supostamente tem o intuito de ter uma lição mais positiva por trás acaba ganhando um novo significado diante desse contexto. A última frase do líder dos Gorgonites, Archer (Frank Langella), para Alan é: “Só porque algo não pode ser visto, não quer dizer que não existe”. E isso pode ser dito sobre essa infantilização da violência enraizada na cultura. Apesar de não serem diretamente visíveis os impactos dessa ação, não quer dizer que ela não esteja ocorrendo.
O filme não propõe uma solução, mas sim esfrega em nossas caras como ela continuará ocorrendo desde que o consumismo exista. É algo que já é tão natural a nós que nem conseguimos mais observar como ela nos afeta. Não é a super proteção que irá impedir ou a criação de ferramentas que regulam o que as crianças fazem ou não. Enquanto o dinheiro estiver vindo, ela vai continuar ocorrendo.
E mesmo 27 anos depois, nada mudou. Fortnite é literalmente um jogo com armas e personagens de mídias para adultos que é amplamente comercializada para crianças. Call of Duty começou a pintar a si próprio essa imagem de ser um “Fortnite só que para adultos”, passando silenciosamente a mesma mensagem que o slogan do Commando Elite. Five Nights at Freddy’s se tornou extremamente popular com crianças apesar de tratar de temas como assassinato, tortura e muito mais.
Mas vale fazer uma ressalva aqui também, antes que se caia em uma leitura simplista do tipo “jogos violentos criam crianças violentas”’. Claro, não quer dizer que ao jogar esses jogos elas se tornarão soldados. Afinal, seria hipocrisia da minha parte, pois eu mesmo joguei vários jogos violentos e tinha brinquedos violentos quando eu era criança e não virei um. No entanto, frente a diversos eventos que ocorrem diariamente e crescendo em meio a uma indústria que vende e empacota a violência em embalagens bonitas, o quão dessensibilizado já nos tornamos a horrores que, se não tivemos essa máquina consumista por trás, talvez seríamos mais empáticos a.
Há também um argumento a ser feito em relação à presença da violência muito antes da existência do próprio capitalismo, seja em ritos tribais quanto em mitologias antigas. Porém, quando ela deixa de ter valor simbólico, com mensagens sobre morte, renascimento e coragem, e se torna um produto esvaziado de contexto a ser vendido a nível escalável, como é feito hoje, o quanto essa exposição se torna corriqueira e problemática?
A necessidade de querer ser visto como adulto através da violência infantilizada continua muito presente e atual, pois a cultura que a permeia não mudou. Afinal, os bonecos de Pequenos Guerreiros foram comercializados na vida real (claro, sem chips militares que dão consciência), quase que como uma ironia frente a mensagem do filme. E as crianças que compraram esses brinquedos agora são os pais das crianças que estão perpetuando esse ciclo da infantilização da violência.
Para encerrar o meu texto, deixo aqui uma das frases mais emblemáticas do filme e que sintetiza perfeitamente o por quê desse problema não ter uma solução simples:
“Não chame de violência, chame de ação. Crianças amam ação. Ação vende. Com o que você está preocupado? São apenas brinquedos.”




