Como Mudar Tudo sem Mudar Nada?

Indagações sobre algumas adaptações e live-actions

Spoilers a seguir para: Como Treinar Seu Dragão (2025); Watchmen – O Filme (2009); O Rei Leão (2019); Watchmen (1986-1987); Como Treinar Seu Dragão (2010); O Rei Leão (1994);

101 Dálmatas (1996) criou um efeito cascata que reverbera até os dias de hoje. Não foi o primeiro remake ou adaptação de uma mídia diferente para o cinema, mas foi a primeira tentativa da Disney de recriar um filme animado seu dentro do live-action. Hoje, quase todos os filmes da era da renascença da Disney foram refeitos no live-action. E ainda sim, é difícil dizer que qualquer um deles se equipara às suas versões originais.

Cortamos para os dias atuais, em que o remake live-action de Como Treinar Seu Dragão (2025) foi lançado nos cinemas brasileiros em junho. A partir da mesma ideia do que anda sendo feito pela Disney, a Dreamworks resolveu adaptar um de seus filmes mais celebrados com atores reais.

Mas a pergunta fica: o resultado foi bom?

Já vou dar o spoiler aqui pois não é exatamente o foco do meu texto: sim, o resultado é bom. Porém, ele não consegue ficar a altura do original. E o mais engraçado de dizer isso é que esse remake praticamente não altera em nada o que foi apresentado na animação, mas ainda sim lhe falta algo substancial. Por isso, a pergunta que mais me entreteve enquanto eu assistia o filme foi: 

Como mudar tudo sem mudar nada em uma adaptação? 


Ok, vamos tirar o elefante da sala aqui. O remake de Como Treinar Seu Dragão é um filme gostoso de assistir, com performances que convém muito bem a quase todos os personagens, e até o retorno do Gerard Butler como o Stoico foi muito bem-vindo. O filme sabe misturar bem o CGI com os efeitos práticos para criar algo que parece real, mesmo com os elementos fantásticos. Para todos os fins e meios, essa é uma boa adaptação. 

Porém, lhe falta algo.

A história é 1:1. As cenas são 1:1. Até a fotografia do filme segue 1:1 os enquadramentos de certas cenas da animação. Todo o tempo que eu assistia o filme eu só conseguia pensar como eu poderia estar assistindo a animação ao invés do live-action, mesmo que ele não seja ruim. 

Existe aquela interminável discussão sobre adaptações: se mudar muito, perde a essência; se não muda nada, qual o sentido? Obviamente, essa frase não está sempre certa. Apesar de eu não concordar, O Iluminado (1980) é um famoso exemplo de um filme que muda totalmente a fonte e que é considerado um clássico do cinema. Já do outro lado, temos filmes como Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001) e Duna: Parte Um (2021) que são reconhecidos por manterem uma fidelidade muito próxima com suas contrapartes, mesmo que com alguns ajustes e cortes. 

Só que Como Treinar Seu Dragão consegue uma façanha que é mudar todo o espírito de sua obra original sem subtrair nada de essencial de sua narrativa. A música é a mesma, a fotografia é a mesma, até as falas são iguais, mas o filme não consegue ter o mesmo impacto do que foi feito originalmente. 

Em uma das cenas de ambos os filmes, Banguela e Soluço ainda estão se conhecendo e Soluço oferece um peixe ao dragão, que come e regurgita o peixe para o garoto comer. Na animação, é uma cena cômica pois, mesmo com a saliva do Banguela ao redor do resto do peixe, a estilização da animação não provoca nojo. Essa mesma sensação é mais difícil de se alcançar quando temos um peixe quase real rodeado de saliva realista que torna a consistência do animal muito mais grotesca aos nossos olhos. Mesmo sem mudar uma única reação da cena, ela já foi recontextualizada só por estar em uma mídia diferente. 

Em outra cena emblemática do filme, temos o momento em que Soluço e Banguela finalmente entram em sincronia no vôo liderado pela trilha sonora fenomenal de John Powell. A cena é exatamente igual em ambos os filmes, mas a expressividade dos personagens na animação a tornam mais impactante. Tanto as caras e bocas feitas por Banguela, quanto a velocidade de movimento mais estilizada que o dragão atinge junto com a precisão de Soluço são o que tornam essa cena tão impactante (obviamente junto à música). Já o movimento mais realista de ambos os personagens no live-action na verdade tira um pouco da emoção, e até mesmo o carisma da cena cômica final onde o Soluço se queima com o fogo do próprio Banguela.

Tudo isso para dizer que a estilização e a expressão única a filmes animados é um fator diferencial que tornava cenas engraçadas, proporciona maior impacto a certas cenas e, no geral, serve melhor a narrativa do filme. Esses são fatores que, sim, é possível contornar em um filme com atores, mas aí voltamos para a discussão: qual o sentido? 

Curiosamente, esse não é o único exemplo de filmes animados que, mesmo sendo quase 1:1, perderam sua essência na tradução. Dois desses exemplos são A Bela e a Fera (2017) e O Rei Leão (2019). Ambos filmes da Disney na sua empreitada de refazer todas as suas animações em live-action

Ambos os filmes sofrem do mesmo problema de Como Treinar Seu Dragão, em que a falta de cores, expressões cartunescas e uma estilização de personagens e ambientes, recontextualizada que acaba tirando do que tornou as animações originais tão especiais. O caso dos dois filmes da Disney acaba sendo muito mais grave, em que muda-se tanto com poucas mudanças que os filmes perdem completamente seu charme e seu carisma. 

Não há exemplo mais simbólico do que a sequência musical da música “Se Prepare”, que serve como a revelação das verdadeiras intenções de Scar contra Mufasa. Enquanto o live-action se contenta com uma sequência no escuro, com poucas hienas se juntando e a música em si quase sussurrada, a animação usa da sua estilização para criar cenas com simbolismo fascista e uma música bombástica que perfeitamente retratam o personagem de Scar e seus pensamentos. Na animação, o meio serve a narrativa e a engrandece, no live-action, a narrativa procura servir o meio e é enfraquecida. 

E essa perda de força devido a uma má tradução não é única e exclusiva de filmes animados. 


Watchmen (1986-1987) é uma daquelas obras que muitos diziam ser “inadaptável”. Não porque sua narrativa é altamente complexa em um nível que não poderia ser replicada, mas sim porque ela é um produto de seu meio. Watchmen funciona pois é um quadrinho, uma grande sátira de tudo que veio antes. Alan Moore, em sua obra, apresenta uma desconstrução da figura do super-herói que havia sido construída por filmes e quadrinhos há múltiplas décadas, criando uma história que é oriunda tanto de seu contexto social quanto cultural. 

Então, quando veio Zack Snyder para adaptar a icônica saga dos quadrinhos para o live-action, houve algum ceticismo. O resultado final, Watchmen – O Filme (2009), acabou sendo controverso. Alguns criticaram a falta de originalidade do diretor em adaptar o quadrinho quase que fidedignamente, enquanto outros criticaram as mudanças e cortes feitos para se encaixar no período de 2h42m. 

Mas, o que é mais curioso aqui, independente da qualidade do filme como uma obra única, é a mudança brusca que é feita em cenas que são praticamente 1:1 com o quadrinho. Personagens são completamente alterados por causa de coisas simples como um enquadramento ou um estilo de filmagem. 

Um personagem que foi profundamente alterado com minúsculas mudanças em suas aparições é o Rorschach. No quadrinho, ele é um sinal de alerta do porque uma figura como o Batman não é alguém que adoraríamos na vida real, mas sim teríamos nojo e repulsa a uma pessoa que é incapaz de diferenciar preto de branco, e abandona sua higiene para lutar contra o crime. No filme, ao colocá-lo em poses épicas e cenas estilizadas no melhor estilo de Zack Snyder, temos uma versão glorificada do personagem. Ele diz as mesmas coisas que no quadrinho, mas a fotografia do filme o coloca em uma posição de herói, e não na posição de um homem solitário e patético como faz o quadrinho.

A cena em que Doutor Manhattan executa Rorschach exemplifica esse ponto. No quadrinho, Rorschach está sozinho em meio a neve, incapaz de aceitar que o mundo não é preto no branco, não é “bom” ou “ruim”, principalmente após as ações de Ozymandias. Já no filme, ele se opõe de forma gloriosa a Ozymandias, sendo sacrificado como um mártir pelas mãos de Doutor Manhattan e tendo o Coruja para lamentar e chorar por sua morte na mesma cena. Ambas as mortes são iguais, mas a execução contextualiza o personagem e o pinta sob uma ótica diferente da que o quadrinho originalmente fez. Isso apenas mudando a forma como é enquadrado, filmado e editado. 

Os heróis no filme e no quadrinho são praticamente opostos uns aos outros. Enquanto os personagens no quadrinho são pessoas cheias de problemas, imperfeitas e extremamente patéticas, no filme elas são vangloriadas com poses e cenas que poderiam ter saído diretamente de um livro de Ayn Rand. E aqui está o cerne dessa diferenciação: Zack Snyder e Alan Moore têm visões praticamente diferentes de mundo, e ambas visões permeiam as suas versões da obra. Enquanto Moore aborda o mundo com uma óptica anarquista, o Snyder traz uma perspectiva mais objetivista. 

Aqui, a má tradução vêm de um problema muito maior do que a migração de uma mídia para a outra, mas a de um conflito de pensamentos. Mesmo com poucas alterações na narrativa, a mudança ideológica inevitavelmente descaracteriza a obra original e a transforma em algo totalmente diferente. Watchmen deixa de ser sobre o quão frágil é a ideia do mundo preto e branco dos super-heróis, e se torna uma novela sobre conflitos interpessoais entre seres super poderosos. 

Parece fácil adaptar uma obra de um meio para o outro sem alterar em nada a sua narrativa e acreditar que irá alcançar os mesmos resultados. Afinal, se ele se deu bem em um meio, o que o impede de funcionar em outro sem alterações? Mas, como vemos aqui, a resposta não é tão simples. 

Cada mídia serve o seu conteúdo de uma forma diferente. Watchmen era dito como inadaptável pois os quadrinhos serviam sua narrativa de forma única usando balões, caixas de texto e enquadramentos próprios do meio. Como Treinar Seu Dragão funciona como uma animação pois diversos de seus momentos nascem do que uma mídia cartunesca pode oferecer, diferente do que um live-action pode entregar.

Isso serve para diversas obras de variadas mídias. Bioshock (2007) não pode simplesmente adaptar a narrativa do seu jogo diretamente pois ela depende do elemento ativo do jogador para fazer sentido. A saga de quadrinhos Crise nas Infinitas Terras (1985-1986) jamais poderá ser adaptada de forma fidedigna pois ela depende de um contexto histórico e editorial de quadrinhos. A Revolução dos Bichos (1964) de George Orwell, mesmo seguindo o mesmo enredo, inevitavelmente irá se perder na tradução se a pessoa responsável por adaptar não tiver uma perspectiva de mundo similar à do autor. 

São inúmeros fatores que tornam complexo você colocar um texto de um meio e colocá-lo em outro sem alterações, por isso fica a questão maior: Vale a pena mesmo adaptar sem mudar nada? 

Como Treinar Seu Dragão de 2025 é um filme bom, porém ele vai sempre vai viver na sombra do original. Afinal, sempre existirá uma versão eternamente melhor na animação. Talvez fosse mais interessante o filme se arriscar mais, ousar mais. Mas como está, ele será esquecido e sempre substituído pela experiência original. 

Claro, uma boa adaptação mantém a essência e as bases fundamentais da obra original. Superman deve ser um símbolo da esperança. O Fantasma da Ópera não deve se casar com Christine. Pinóquio aprende que honestidade e os seus erros é o que o tornam humano. Muitas vezes mantém-se o percurso narrativo mas altera a obra para que ela converse com o seu meio com mais força, às vezes correndo o risco de descaracterizar o produto original, mas alcançando algo próprio. 

Mudar tudo pode destruir uma adaptação? Sim, existem inúmeros exemplos desde Homem de Aço (2013) até Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (2017), que foram recebidos com controvérsias do público e crítica. Porém, há também exemplos emblemáticos de adaptações que conseguiram até superar as suas obras originais nos olhos do público, como Jurassic Park (1993) ou Tropas Estelares (1997). 

Então, no final das contas, repetir o que deu certo muito provavelmente vai replicar quase a mesma sensação, mas sempre aquém do que poderia ser se alguém usasse um pouco mais. Viver debaixo de uma sombra vai sempre tornar o novo produto muito mais fraco do que o original, mesmo que ainda seja uma experiência positiva no geral. Se me perguntassem se vale mais a pena ficar no conforto de algo igual ou apostar na possibilidade de algo ser ótimo ou péssimo mudando tudo, eu diria: Arrisque tudo

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