É extremamente comum vermos livros, jogos, quadrinhos e até peças de teatro sendo adaptadas para o cinema. O que é extremamente incomum, e ocorre em uma frequência muito pequena, são álbuns de música sendo transformados em filmes.
Afinal, é algo da própria natureza da música, que muitas vezes não requer uma narrativa concisa tal qual um filme para transmitir suas emoções. É difícil tentar adaptar a emoção e os sentimentos de um álbum de artistas como Black Eyed Peas ou Linkin Park para uma estrutura narrativa dividida em três atos como estamos acostumados. Esses álbuns, mesmo que sigam uma linha temática, não carregam consigo personagens, enredos ou arcos de desenvolvimento. Muitas vezes um álbum pode ser sobre como é legal dançar em uma balada, ou quão triste é ser traído pelo seu namorado.
Uma exceção a essa regra, no entanto, são os chamados álbuns conceituais. Esses álbuns de música, diferente do que vemos tradicionalmente, possuem enredos, personagens e até mesmo uma progressão narrativa. Esse tipo de álbum também pode se referir também apenas a álbuns que possuem uma temática maior que permeia todas as músicas e faz uma reflexão ou chega em uma conclusão. Alguns exemplos estão o The Wall (1979) da banda de rock progressivo Pink Floyd ou Lemonade (2016) da cantora Beyoncé. Curiosamente, ambos esses exemplos foram adaptados para um formato de filme.
No entanto, mesmo nesse gênero, raras são as exceções onde a adaptação não é um mero musical e procura ser um filme que consiga se sustentar sem o apoio do álbum, tal qual ocorre com adaptações de outras mídias. Os próprios filmes que citei, ambos contam com pouquíssimas ou quase nenhuma cena onde não são tocadas músicas do álbum e servem apenas como um grande videoclipe para o álbum como um todo.
E um desses poucos exemplos é Imaginaerum (2012). Um filme baseado no álbum de mesmo nome lançado em 2011 pela banda finlandesa chamada Nightwish. No entanto, parecia uma tarefa hercúlea adaptar um álbum que, ao mesmo tempo que toca em temas extremamente pessoais para o compositor, ainda fala sobre temas fantásticos como contos de fadas, circos mágicos e parques de diversão na terra do nunca. Ainda mais se tratando de uma produção finlandesa, um país que não é exatamente conhecido por sua extensa biblioteca de blockbusters. E será que o filme obteve sucesso em sua empreitada?
E mais importante: como se adapta um álbum de música para o cinema?
Antes de falar sobre o filme, é importante falar sobre a banda e o álbum que a originou. Isso porquê o filme ao mesmo tempo se sustenta e não sobrevive sem entender a banda por trás.
A banda Nightwish, originária da Finlândia, é uma banda do gênero metal sinfônico. Esse gênero pode ser melhor descrito como: Hans Zimmer e Iron Maiden se juntam em uma banda. Portanto, Nightwish, em seu repertório, já trazia consigo muita bagagem cinematográfica, com amplas referências ao próprio Hans Zimmer, como também aos filmes clássicos da Disney em sua discografia.
Imaginaerum (2011) é o sétimo álbum da banda, que já estava muito bem estabelecida na Europa como uma banda de sucesso. Esse álbum, como todos os outros antes, foi composto inteiramente pelo tecladista e líder da banda Tuomas Holopainen.
Em um nível superficial, é um álbum que mistura diversos gêneros, desde folk metal até blues, e fala sobre contos de fadas e aventuras místicas. Porém, um olhar mais crítico que leva em conta não só a história polêmica da banda, como os pensamentos do próprio artista, revela um subtexto um pouco mais profundo. Vemos aqui um álbum sobre a perda da inocência, uma busca pelo maravilhamento juvenil e uma progressão temática que chega em uma reflexão sobre a beleza e o horror que mora em todos nós. Não só esse álbum possui seu próprio clímax, como também serve como um ponto de virada na própria história do compositor e da banda.
É importante frisar que o álbum constantemente fala sobre o escapismo através de histórias fantásticas, mas também prende-se a emoções humanas que são o motor de todas essas fantasias. Ao final do álbum, o compositor traz sua própria interpretação do poema de Walt Whitman intitulado Leaves of Grass (1855). Um poema que, por muitas vezes, fala sobre liberdade e nosso próprio senso de mortalidade. Na versão da banda, refletindo sobre a beleza e o horror que se contradizem na nossa sociedade, mas que ainda existem, o autor reflete sobre si próprio e sua vontade de querer ser uma boa pessoa, mesmo sabendo que a dor e os traumas do passado sempre podem o assombrar.
Agora, com tudo isso dito, como se constrói uma narrativa estruturada no formato de um filme a partir desses conceitos temáticos amarrados de forma não-própria para uma adaptação cinematográfica?
Simples: Você retém a temática, mas cria algo totalmente diferente.
Spoilers para o filme a partir daqui:
Agora, falando sobre o filme em si. Eu o encontrei no Youtube completo e dublado em inglês, uma vez que ele não está em nenhuma plataforma de streaming (e francamente acredito que nunca estará).
O filme se divide em duas frentes. Em uma, acompanhamos a mente de Thomas Whitman (Francis X. McCarthy), um ex-músico que está aos poucos sucumbindo a demência e chegando próximo de sua morte. Em sua mente, ele viaja pelo seu passado enquanto tenta tirar algum sentido do universo fantástico que existe na sua mente com monstros fantásticos, circos malignos e montanhas-russas intermináveis. Na outra frente, temos Gem (Marianne Farley), filha de Thomas, ponderando sobre assinar uma Ordem de Não Reanimar para seu pai do qual ela nunca foi próxima, ao mesmo tempo que ela investiga mais de seu passado.
Somos aos poucos introduzidos a diversos elementos que mudam a perspectiva de ambos os personagens. Descobrimos que o pai de Thomas cometeu suícidio quando o mesmo era jovem, e que esse foi o evento catalisador que redefiniu a forma como Thomas via o mundo, procurando refúgio na música e no escapismo. Gem, ao mesmo tempo, descobre que seu pai se afastou dela após a trágica morte da mãe dela. Procurando evitar com que o trauma geracional passasse para sua filha, Thomas escolheu se afastar e acabou por quebrar a única ligação que existia entre os dois: um arabesco de vidro com uma bailarina dentro.
No final do filme, Gem encontra papéis que revelam que seu pai de fato se importava com ela, mas conseguia expressar seus sentimentos apenas pela música. Thomas, em seu estado demente e já próximo da morte, escolhe dessa vez não correr para o escapismo de um mundo fantasioso, mas abraçar as memórias que possuía com sua filha. Em uma reconciliação final, Thomas faleceu no hospital, acordando e reconhecendo sua filha uma última vez antes de partir.
Durante todo o filme, Thomas diz que as notas “Sol e Mi Menor” eram as mais belas que ele poderia tocar. No final do filme, entende-se o porquê dele gostar tanto dessas duas notas musicais. Em uma partitura com um poema que Gem não consegue decifrar inicialmente, ela vê a frase “… E para sempre irá morar ali aquela mudança de Sol a Mi Menor”. Essas duas notas são escritas pela letra G e Em respectivamente, que formam o nome da garota e mostra que a coisa que mais importava para Thomas era sua filha.
Curiosamente, essa mesma frase é a que fecha o álbum, mas sob um contexto totalmente diferente. No álbum, ela é uma reflexão sobre o que fez a banda ser notória dentro do meio (há constantes mudanças de notas de forma drástica em quase todas as suas músicas), mas é também uma reflexão do artista para com sua vida. A nota Sol está geralmente associada a músicas alegres, enquanto o Mi Menor está associado a músicas com tons mais tristes. O compositor observa que sua vida sempre será esse pêndulo que vai da felicidade à tristeza e vice-versa, mas que ele deve continuar preso a realidade bela e impura, ao invés de fugir para o conforto da fantasia perfeita.
Ao olharmos para a narrativa criada, é possível ver como ela ao mesmo tempo cria algo totalmente diferente, mas ainda retém as mesmas reflexões feitas pelo álbum. Não é à toa que quem atua como a versão no auge de Thomas Whitman é o próprio compositor da banda, Tuomas Holopainen.
O filme e o álbum usam linguagens totalmente diferentes, mas no fim chegam na mesma mensagem. O álbum faz uma reflexão pessoal da jornada de vida do compositor e da história da banda, reiterando sobre seu desejo de fugir para o escapismo onde a inocência infantil ainda impera, mas que tal qual precisamos deixar aqueles que morreram ir, devemos também ceder nossa inocência e dar lugar a beleza e as contradições do mundo que podemos ver.
Já o filme usa de uma terceira pessoa para tal, mas essencialmente traduz o mesmo contexto. Nele, há uma discussão sobre abandonar a pureza de nossos sonhos para abraçar aquilo que é real, senão pouco a pouco até aquilo que está bem na nossa frente pode se tornar distorcido e corrompido pelos traumas do passado. Essencialmente, é sobre aceitar as impurezas e erros de nossa existência, mas não deixar com que o amor que podemos dar se veja soterrado debaixo da esperança do que poderia ser.
No entanto, o filme em si não consegue cumprir com todo seu potencial. Apesar de ter ideias interessantes, a narrativa é muitas vezes confusa em sua execução, a atuação mostra-se fraca mesmo considerando a dublagem por cima e o filme sofre com a necessidade de inserir videoclipes no meio do seu enredo para promover a banda. Eu poderia criticar os efeitos especiais que parecem sair direto de um filme feito para o Disney Channel, mas considerando que é um filme produzido na Finlândia com um orçamento de uma coxinha e um refri, acredito que eles conseguiram construir algo que se sustenta.
No fim das contas, é um filme cheio de problemas que carrega diversas ideias interessantes consigo. Ele muitas vezes se preocupa mais em ser uma expressão visual da temática do álbum do que de fato ser uma narrativa que consegue entregar a mesma mensagem sem precisar do álbum como muleta.
O meu viés em relação a esse filme já é claro do momento em que eu sou um fã da banda e já assisto esse longa após ter escutado o álbum e após já ter feito certa pesquisa em relação a história do compositor e da banda. Portanto, não poderia dizer se o filme se sustenta para alguém que nunca ouviu falar de Nightwish. Porém, tenho a leve impressão que não. Para um espectador comum, o filme pode se apresentar como apenas um filme comum de drama que peca na entrega de seus momentos mais emocionais. Já para um fã da banda, esse filme serve como uma ponte que esclarece e realça ainda mais o que o álbum já estava tentando dizer.
E, talvez, uma boa adaptação de um álbum de música para o cinema deva fazer justamente isso. Trabalhar em conjunto com o que a música tem a oferecer para criar uma experiência que apenas reforça a grande mensagem por trás, e usa da linguagem cinematográfica para construir algo totalmente diferente.
Uma adaptação de um álbum do System of a Down, por exemplo, poderia entregar a hipocrisia da indústria cultural e os olhos fechados para o terror do genocídio armênio em uma história. Uma adaptação de algo feito por Kendrick Lamar poderia trazer uma narrativa sobre as injustiças raciais dos EUA e a brutalidade policial. As possibilidades são inúmeras com todo tipo de artista ou banda.
Imaginaerum não se entrega totalmente a essa ideia, ainda preso às expectativas de um filme musical que contenha videoclipes da banda junto, mas ele mostra um possível caminho. Mesmo com uma narrativa que superficialmente não tem nada a ver com o álbum fora a sua atmosfera musical, ele reproduz e realça a mensagem contida em ambos conteúdos.
Talvez seja a hora para estúdios e diretores darem mais atenção a essa possibilidade de se criar obras cinematográficas usando álbuns de música como base. É possível criar narrativas que abraçam as mesmas emoções que os sons provocam ao mesmo tempo que se cria algo totalmente original. Mesmo que imperfeito, esse filme prova que esse potencial está lá para se criar ainda mais adaptações de álbuns que não sejam videoclipes mais longos, mas sim suas próprias experiências que usam do poder do cinema para realçar a mensagem de um artista.
É possível criar uma experiência cinematográfica completa a partir de algo tão diferente como a música.
Da mesma forma que é possível sempre trocar do Sol para o Mi Menor…




